Ora façam-me lá o favor de me explicar o que significa exactamente estar referenciado pela Segurança Social?
O que implica? O que evita? O que resolve?
PARA QUE SERVE?
Mais vale cedo...
Acabei de me inscrever!
Caminhar só...
Estaremos condenados a relações dependentes? Seremos mesmo seres dependentes de uma relação amorosa?
Não é que a questão me atormente, nem que me consuma os dias, mas de tempos a tempos questiono-me sobre a minha dependência do outro ou outros, da necessidade da opinião favorável dos demais, da insegurança perante a ausência do companheiro ou companheira...
Somos animais de hábitos e construímos vidas inteiras partilhadas, não nos imaginamos a longo prazo sem ser em companhia de alguém e para nós a máxima de "nenhum homem é uma ilha" é uma verdade inquestionável!
Talvez por isso nos sintamos perdidos quando os castelos que enfabulamos a dois se desmoronam perante a ausência, acidental ou intencional do outro. Talvez por isso depois dessa ausência demoremos tanto tempo a reencontrar-nos, a descobrir a nossa verdadeira pessoa no meio dos destroços deixados pela ausência.
Penso nesta possibilidade há tanto tempo que me assusta pensar que talvez, só talvez perante a ausência não me sentisse tão perdida assim. Insisto que é para me defender da possibilidade, para me preparar, mas acho que é o medo que me guia.
É por essas e por outras que me imagino sempre a viver sozinha na velhice, a viajar e a escalar às montanhas mais longinquas. As imagens sucedem-se em espiral, como um sonho vertiginoso. Não, não são pesadelos, não pensem, são sonhos, castelos criados no ar, fábulas que vou criando para mim, desafios que me lanço e que sei um dia vou ultrapassar...
Até lá, vou-me preparando, vou-me imaginando só e o sentimento de paz é imenso...
Porque tenho dois filhos...
... e porque hoje se convencionou chamar de Dia Mundial da Criança...
Quem é que não se lembra desta criança? Aquela que me fez acreditar que é bom ser-se assim livre!
Talvez hoje as crianças precisassem mais do que nunca dele...
Intelectualidade perdida?
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Pergunto-me o que será ser afinal, um intelectual?
Será a intelectualidade algo mensurável? Será que a podemos adquirir e mais tarde perder?
será que se pode ser intelectual num dia e no seguinte afinal já não?
A Mário Vargas Llosa parece ter acontecido isso mesmo. Perdeu a sua intelectualidade e segundo autoridades venezuelanas, o senhor é no momento um ex-intelectual, algo que acho pura e simplesmente formidável, porque lhe confere um estatuto especial e completamente delicioso. Seria uma óptima adição aos intelectualoides portugueses que a sua suposta intelectualidade fosse intermitente, para que pudessem apurar as verdadeiras luzes da intelectualidade.
Ainda assim, estou em crer que Vargas Llosa, na sua "desintelectualidade" ou como afirmam as autoridades venezuelanas que o mantiveram preso durante horas no aeroporto, impedidndo-o de entrar no país, a sua ex-intelectualidade, poderia dar enormes lições aos portugueses que se afirmam superiormente intelectuais!
Pegadas...

Caminhava lentamente, tão lentamente que parecia que o seu caminho não tinha fim. A cada passo olhava por cima do ombro, um rosto que não expressava o sentimento mas à medida que se afastava, mais uma luz se apagava no firmamento...
As pegadas iam-se moldando na areia mole e molhada da praia, deixando um rasto visível, como se as marcas fossem uma extensão do seu ser que se prolongava por quilómetros e quilómetros.
Olhava as pegadas de olhos bem abertos, prolongando mais e mais o olhar, pela imensidão de caminho já percorrido. O rosto perdeu a expressão sem expressão, parecendo adquirir um brilho que crescia e crescia, vindo de dentro, do fundo da alma.
Um sorriso assomou-se-lhe aos lábios e o rosto iluminado ficou incandescente, acendendo de novo todas as luzes que apagara no caminho. O seu corpo deixara de ter forma e os passos não eram já visíveis.
O mar apagara os seus últimos vestígios e à medida que o seu corpo se moldava na imensidão da eternidade, também os seus passos, as suas pegadas moldadas no barro da terra se misturavam com o sal do mar.
Ele sorria, numa expressão que ganhava vida ao invés de desaparecer. Para trás deixara as lágrimas, para trás deixara a vida, o sofrimento, as alegrias, a dor...
... para trás haviam ficado amores, amigos, inimigos e a vida inteira...
Não parecia triste por isso. Na verdade, ao vê-lo dei-me conta que aquelas pegadas tinham ficado marcadas em mim, no meu corpo, na minha mente. Havia visto como ele percorreu o seu caminho e ficou-me a saudade de o ter comigo, o seu sorriso, a sua gargalhada terna. Não conseguia recordar-me de uma ocasião em que a sua marca fosse negativa em mim e dei-me conta, mais uma vez, que o barro com que me moldara havia sido de boa qualidade. Sorrira ao ver desaparecer os seus passos. Sorrira e iluminara-se-lhe o rosto à medida que se moldava com o ar que respiro, com o mar em que me banho e me deixo envolver pensando nele...
"Fazemos parte da espuma dos dias" - tinha-me dito - "somos como as pegadas na areia, um dia estamos lá, bem vincados no caminho. No dia seguinte moldamo-nos nas ondas, fundimo-nos com as conchas e rumamos à imensidão infinita do ar que respiramos..."
Ficaram-me as suas palavras gravadas na memória, ficou-me um pedaço de si na carne, no sangue, no que faço e no que penso...
... memórias...
Quem não se recorda?
Quem como eu teve a sua infância nos anos 70, recorda-se certamente da mira técnica de início e fim da transmissão televisiva.
Recordar-se-ão igualmente de apenas haver transmissão uma parte do dia e de os telejornais ocuparem a maior parte dessa transmissão. Ou então será a minha memória que terá ficado cristalizada naquele momento da infância em que tudo o que era assunto de adultos era uma chatice e demorava eternidades...
Há dias conversava com os meus filhos sobre esta minha memória, sobre a nossa realidade de crianças nos anos 70 e a diferença que existe em relação ao presente.
A mim juntou-se o meu marido que recordou que desenhos animados só tínhamos inicialmente ao sábado de manhã, trazido pelo querido Vasco Granja, num programa que dava ênfase à animação europeia.
Ficávamos então infindáveis minutos a ver animação checa, de bonecos feitos de plasticina que se moviam de forma assustadora, desmembrando-se e reconstruindo-se como que por magia... mas estávamos já na expectativa do que se seguiria, promessa feita pelo senhor Granja que nunca mentia e nunca faltava à promessa - antes do genérico final, lá estava ela, a tão esperada e tão amada pantera cor-de-rosa!
Um episódio - UM - e fazia as delícias de todos nós...
E lá terminava o senhor Granja, com o seu ar tão vertical como meigo, a sua voz característica que durante anos ficaria gravada na minha memória até aos dias hoje, bastando-me para isso fechar os olhos e vê-lo na minha frente, passeando-me por entre figuras de plasticina disformes e vozes estranhas até um grande ecrã onde ele com o seu dedo comprido e rectilíneo me faz olhar ávida para a pantera mais amada da minha geração.
Adeus Vasco Granja, estou certa que toda a minha geração te saúda como o grande animador de pequenas almas que foste.
